Na assembleia geral de uma grande companhia de energia em maio, um item que costumava passar batido ganhou destaque: a qualidade do diálogo com comunidades afetadas por novos empreendimentos. Acionistas institucionais — fundos de pensão, gestoras de recursos e seguradoras — pediram explicações detalhadas sobre como a empresa mapeia partes interessadas e quais indicadores usa para medir resultados.

Não foi um caso isolado. Em 2026, pelo menos cinco gestoras brasileiras com patrimônio combinado superior a R$ 200 bilhões publicaram diretrizes internas que incluem critérios de stakeholders em votos de governança. O movimento reflete uma mudança de postura: investidores deixam de tratar ESG como apêndice do relatório anual e passam a exigir processos verificáveis.

Do discurso ao voto

«Antes, a pergunta era se a empresa tinha política de sustentabilidade. Agora é como essa política se traduz em decisões de conselho», resume Patricia Almeida, diretora de stewardship de uma gestora com sede em São Paulo.

Entre as exigências mais comuns estão a existência de comitê ou cargo dedicado a relações com comunidades, divulgação de canais de escuta e relatório de incidentes relevantes envolvendo grupos de interesse. Em casos de infraestrutura e mineração, investidores pedem evidências de consulta prévia a populações afetadas — prática prevista em normas internacionais e cada vez mais cobrada em licitações públicas.

A gestão de stakeholders deixou de ser custo de compliance e virou variável de risco que o investidor precisa precificar.

Pressão sem uniformidade

O avanço não é homogêneo. Empresas de capital aberto com maior free float e presença em índices ESG sentem mais pressão. Companhias familiares com estrutura concentrada de controle ainda conseguem, em muitos casos, aprovar pautas sem debate profundo sobre engajamento externo.

Há também críticas ao próprio movimento investidor. ONGs apontam que critérios financeiros continuam predominando e que votos contra gestão raramente citam violações de direitos de comunidades tradicionais. «O progresso é real, mas ainda seletivo», avalia Lucas Ferreira, coordenador de advocacy em organização ambiental com atuação na Amazônia.

O que esperar nas próximas assembleias

Para o segundo semestre de 2026, analistas projetam aumento de propostas de acionistas sobre transparência em cadeias de fornecimento e diversidade em conselhos — temas que se conectam diretamente à agenda de stakeholders.

Empresas que ignoram a tendência podem enfrentar não apenas votos contrários, mas também dificuldade em captar recursos de fundos com mandatos ESG. O recado dos investidores institucionais é claro: governança moderna inclui quem está fora do quadro de funcionários — e isso passou a constar na ata.

Leia também nossa reportagem sobre diálogo com comunidades em expansões industriais e a análise sobre mapas de stakeholders na liderança corporativa.

Atualizado em 10 de junho de 2026.